O papel da liderança para o desenvolvimento de uma cultura de segurança positiva.

Autor(a):

Psicólogo Julio Cezar Ferri Turbay – CRP 08/06469

Contato: julio@comportamento.com.brwww.comportamento.com.br

Publicação:

 

Nos processos de consultoria desenvolvidos pela nossa empresa é comum ouvirmos a seguinte expressão: “precisamos desenvolver uma cultura de segurança em nossa organização”. Porem é preciso entender que toda empresa tem uma cultura de segurança, principalmente se entendemos tal fenômeno como a forma como fazemos as coisas. Ou seja, podemos ter dentro de nossas empresas culturas de segurança mais positivas ou mais negativas.

As culturas de segurança positivas se marcam pela maneira que a organização responde a estes questionamentos:

– A segurança faz parte do negócio?

– Temos uma visão de longo prazo na manutenção da Cultura de Segurança?

– A responsabilidade pela segurança se distribui de maneira uniforme e o líder é o principal responsável pela segurança, mas não o único?

– A área de segurança tem um papel bem definido como de uma consultoria interna?

– Escutamos periodicamente as percepções das pessoas quanto aos riscos e perigos presentes no nosso processo produtivo?

– A empresa tem estabelecida uma Politica de Consequências clara desde suas sanções ate seus reconhecimentos? E os trabalhadores percebem que esta politica esta sendo utilizada de maneira adequada?

– Segurança esta lado a lado com os demais valores da empresa? Sempre levando em conta o aspecto teórico e pratico?

– Existe coerência entre o que se fala e o que se faz dentro da organização?

– O ciclo PDCA das ferramentas implantadas de segurança são constantemente revisados e revisitados?

– Existe um bom alinhamento entre condições, gestão e pessoas?

– Existe um bom processo de gestão de incidentes? E os nossos indicadores são proativos?

– Os acidentes quando existem são de baixa gravidade e são analisados enfocando as aprendizagens que podemos tirar deste evento? Além do fato de entendermos os acidentes de trabalho como fatores multicausais?

Quando respondemos sim a cada uma destas perguntas podemos dizer que o “termômetro” da cultura de segurança nos esta indicando que nossa empresa tem uma cultura de segurança positiva. É um fato, que o nível desejado por muitas organizações que buscam a excelência em seu processo de segurança não é alcançado de uma hora para a outra, exige muita dedicação e continuidade no que diz respeito a programas e ferramentas de segurança que a empresa define como os vetores para o atingimento dos seus resultados.

É exatamente aqui que entra a discussão proposta por este artigo de entendermos o papel do líder para chegar a este nível de cultura de segurança desejado.

Para começo de conversa se você é um líder dentro da sua organização e respondeu as perguntas acima com um não após o outro e ainda justificava que a organização é assim mesmo que “eles” não pensam em mudar nada, etc… o primeiro conceito a ser revisto é o fato de que você (goste ou não) é a empresa. O que quero dizer com isso é que as empresas não podem ser vistas como uma pessoa com vida e que toma decisões. São as pessoas que compõem a empresa que tomam decisões.

Em um treinamento realizado com líderes perguntei aos participantes como percebiam o papel do líder para o processo de segurança e um dos participantes me disse que cada líder tem que ser a personificação da politica de segurança da empresa. E realmente esta foi uma reposta que me convenceu, pois saímos de uma visão um tanto passiva de “seguimos a politica da empresa” para somos, de fato, a politica da empresa. Entendo que um líder com este nível de discernimento atua e toma suas decisões com base nesta política.

Se o líder tem um papel tão essencial no desenvolvimento de uma cultura de segurança positiva vale que este esteja atento a alguns desafios em seu dia a dia.

A partir de atividades realizadas com líderes de grandes empresas no Brasil e em outros países da América Latina destacamos os seguintes desafios:

 

 

  1. O líder como exemplo:

O gerente de uma grande companhia me relatou uma vez que: “ser exemplo por um tempo é fácil, difícil é manter-se como exemplo”. Isso faz todo sentido quando pensamos que a vocação de muito profissionais que ocupam cargos de liderança nas grandes empresas e também o seu processo de formação sempre foi focado no desenvolvimento de habilidades voltadas aos processos produtivos. Podemos tomar como exemplo todo o movimento pela qualidade que teve sua resistência inicial, mas por se tratar de um sistema muito mais matemático e lógico esse processo começou a fazer parte da vida do líder de uma maneira mais fácil. Claro que não estou buscando simplificar as coisas ou insinuar que os sistemas de qualidade sejam mais simples que os sistemas de segurança, porem não podemos negar que o aspecto subjetivo relacionado ao sistema de segurança, talvez nos deixe com um desafio um pouco maior.

Voltando ao relato deste líder devo dizer que não podemos, de maneira nenhuma, criar uma expectativa de que o líder fara tudo certo sempre, somos humanos e podemos errar. E quando se trata de manter-se como exemplo para este mesmo gerente citado ele diz que por mais que a pessoa se esforce para manter uma linha adequada de atuação em segurança cada equivoco que a pessoa comete, possivelmente, será mais lembrado que as boas iniciativas que tomou.

De maneira prática o que devemos levar em consideração é que as atitudes, gestos e palavras de cada líder influencia a maneira como os trabalhadores vão encarar o tema segurança. Uma antiga discussão que, ainda, se vê em algumas empresas é o fato de alguns líderes, que por ficarem menos tempo expostos a alguns riscos não utilizam os seus EPI´s. Aquela velha história onde o gerente desce a planta e não põem o seu protetor auricular porque, segundo ele, o tempo de exposição é menor e não é necessário utilizar. Essa explicação esta bem do ponto de vista técnico, ou seja, é possível que por tempo de exposição aos ruídos não fosse necessária a utilização, mas aqui não se trata disso, mas sim da mensagem que passamos as pessoas. Sempre devemos buscar coerência entre o nosso discurso e as nossas práticas, isso é ser exemplo.

Cada decisão tomada por um líder tem uma carga de mensagem muito importante, por exemplo, já vi situações onde decidir por realizar uma determinada tarefa, mesmo percebendo que nem todos os riscos estavam devidamente controlados gerou nos trabalhadores uma clara mensagem de que para aquela empresa segurança não é um valor. Perceba a força deste ultimo comentário. A decisão individual do líder levou aos trabalhadores a perceber que a EMPRESA não tem a segurança como valor. Isso nãos nos deixa dúvida, temos sim que personificar a politica, ou mesmo, a mensagem de segurança que a empresa quer passar a todos os seus trabalhadores.

Ser exemplo pressupõe que o líder deverá ter a segurança como um valor pessoal, isso nos deixa a coisa muito mais fácil. Para você a segurança é um valor pessoal? Olhe suas atitudes no dia a dia, não só dentro da fábrica e pense que mensagem de segurança você passas a todas as pessoas que estão a sua volta?

A partir da reposta a esta pergunta você já terá uma importante pista para saber se você é ou não visto como um exemplo, e principalmente se a segurança é de fato um valor para você.

 

  1. Resultado X Processo:

Quantos acidentes acontecem por ano em sua fabrica? Quais são as taxas de frequência e gravidade? Quais são as principais causas dos acidentes? Boa parte dos líderes que se envolvem com segurança sabem responder com facilidade a estas perguntas, porem se enrolam quando tem que falar sobre o processo que os leva a tais resultados.

Recentemente me vi frente a um importante conflito com o gerente de planta de um dos nossos clientes. Pois ele insistia em dizer que a sua planta tinha excelentes resultados, pois já se aproximava de ter um ano (365 dias) sem acidentes com afastamento. O conflito foi gerado, pois comentei com ele que alguns resultados da planta preocupavam e que devia ter muito cuidado em afirmar que a planta tinha excelentes resultados. Por exemplo, se identificavam continuamente acidentes sem afastamentos que analisados de maneira minuciosa nos apontavam para eventos com grande potencial de gravidade, ou seja, foram eventos sem afastamento por um mero detalhe. Além de identificarmos durante o processo de treinamento de lideres uma quantidade bastante significativa de comportamentos de risco o que deixava o cenário ainda mais preocupante. O fato de se ter zero acidentes por um período como este deve ser entendido como algo positivo, mas não coloca a planta em uma situação em que pode afirmar que tem um ambiente seguro. Em circunstâncias ligeiramente diferentes os acidentes sem afastamentos citados poderiam ter ocasionado grandes perdas.

Este caso ilustra bem o que estamos tratando de diferenciar entre líderes focados em resultados e em processos. Uma cultura de segurança positiva é aquela onde os lideres vão mais além do simples resultados, mas que têm uma visão bastante crítica de seus processos. Em um de nossos clientes quando perguntamos para os lideres como esta o processo de Observação e Abordagem Comportamental ouvimos a seguinte resposta:

“Conseguimos convencer as pessoas sobre a importância dos uso de EPI´s, é incrível como a tendência de comportamentos de riscos relacionados a este aspecto esta reduzindo, principalmente nos últimos três meses, imagino que seja pela campanha que iniciamos a partir dos resultados identificados nas análises criticas feitas a cada mês. Nossa preocupação agora esta mais focada em temas de procedimentos que tem sido o ponto crítico identificado, de todas maneiras estamos pensando em fazer uma ação com todos os nossos líderes onde cada um assumiria a responsabilidade de conduzir um Dialogo de Segurança de 20 minutos tratando sobre o tema e pensamos também em realizar um trabalho mais forte de orientação das pessoas para que identifiquem os procedimentos relacionados com as atividades que vão realizar durante o processo de análise prévio de riscos, inclusive mudamos um pouco o formulário de Análise de Risco para inserir uma coluna apontando para este tema”.

Seguramente os líderes enfocados em resultados nos responderiam: “Estamos cumprindo 100% das metas de Observação Comportamental”.

E você, como responderia a uma pergunta que trata de algum processo de segurança de sua empresa? Enfocado em resultado ou no processo?

 

 

  1. Entender o motivo dos comportamentos:

Ao realizar processo de investigação de acidentes podemos diferenciar de maneira evidente as empresas que possuem uma cultura de segurança positiva. Primeiro pelo fato de levar em consideração que para a ocorrência deste acidente muitos fatores e causas podem estar relacionados. Além disso procuram investigar pelo menos três fatores essenciais que são:

  1. Os aspectos relacionados as condições no momento do trabalho que podem ter contribuído no momento do acidente.
  2. As barreiras potenciais de gestão.
  3. E os fatores humanos presentes.

Um dos grandes desafios da liderança é de fato entender por que uma pessoa toma determinadas ações. Com o processo preventivo podemos utilizar o seguinte esquema que nos deixara este aspecto um pouco mais claro:

 

Ou seja, o trabalhador deve ter uma boa percepção de risco para poder, de fato, realizar escolhas adequadas. Este também deve estar em um ambiente de confiança, onde clima e cultura de segurança sejam percebidos de fato como positivos isso tudo o leva a tomar decisões alinhadas com a expectativa da empresa. O líder tem uma influencia direta sobre os dois primeiros aspectos, ele deve ser um dos importantes vetores no desenvolvimento da percepção de risco dos trabalhadores e também é ele o principal responsável em gerar ambientes de confiança. Por fim cabe também ao trabalhador tomar a decisão mais segura, que será mais provável se houverem os aspectos citados anteriormente.

 

  1. Barreira hierárquica:

Tal como comentado no último aspecto apresentado cabe ao líder criar ambientes adequados e que chamaremos de ambientes de confiança. Para isso o líder deve buscar utilizar cada vez mais a sua capacidade de influencia. Um dos líderes com quem já trabalhei me dizia que o desafio dele não era de convencer as pessoas para o processo de segurança, mas converte-los para este processo.

Para entender melhor do que se trata o ambiente de confiança de que falávamos aqui vão alguns aspectos que o podem caracterizar:

  1. Abertura para o diálogo: os trabalhadores somente serão capazes de realizar um bom trabalho de identificação de incidentes e atos e condições abaixo do padrão, se realmente eles perceberem que o ambiente onde estão é seguro. Em algumas empresas, processos como estes são percebidos pelos trabalhadores como ou uma possibilidade de revanche, ou simplesmente uma denuncia.
  2. Transparência: cabe a liderança deixar claro suas expectativas sobre as pessoas e que estas de fatos estejam alinhadas com as possibilidades de entrega de cada um dos trabalhadores. Busque ser transparente na maneira como reconhece e sanciona a seus trabalhadores, isso fara como que os trabalhadores percebam o fator justiça em cada uma de suas decisões.
  3. Responsabilidade compartilhada: quanto mais preparamos e delegamos as pessoas responsabilidades pela segurança mais os trabalhadores sentirão confiança para participar e atuar de maneira positiva em seus ambientes de trabalho. Mas lembre-se que primeiro temos que preparar para depois delegar. Delegar funções ou responsabilidade a quem não esta preparado é uma excelente maneira de que se acabar com um ambiente de confiança.

 

Pergunte-se constantemente se suas ações são coerentes com o que você cobra de seus trabalhadores e se suas decisões são percebidas por seus trabalhadores como justas e adequadas, com isto você poderá saber se será ou não capaz de criar ambientes de trabalho pautados pela confiança.

Afinal, são estas ações que minimizam toda e qualquer potencial barreira hierárquica que possa ser criada.

 

Conclusões:

Não há duvida que o desafio de ser um líder para a segurança é bastante grande, principalmente se pretendemos estabelecer uma cultura de segurança positiva, pautada pelos principio que foram discutidos neste texto. Porem é um fato que a liderança para a segurança realizada de forma adequada é um dos grandes alavancadores de saúde organizacional. Um comentário bastante ilustrativo disto foi feito por um líder, segundo ele: “Começamos com o tema de melhorar a segurança e quando nos demos conta tudo começou a melhorar junto”.

Isso acontece porque ao atuar em aspectos de segurança de maneira realmente genuína estamos passando uma importante mensagem aos nossos trabalhadores: A vida de cada um dos nossos trabalhadores é o principal valor que temos em nossa empresa.

Se pretendemos estabelecer de fato uma cultura de segurança positiva em nossas organizações devemos atuar na capacitação constante de todos dentro da empresa, na avaliação da cultura e do clima de segurança, no PDCA de todas as ferramentas e principalmente fazer da segurança um modo de vida de nossos trabalhadores.