ARTIGO

O SUJEITO RESILIENTE E OS VALORES DA EMPRESA

Autor(a):
Leticia Lorga

Publicação:
Nada consta sobre a publicação.
Na década de 90 ocorreu uma reestruturação do sistema de produção no Brasil, a produção flexível, superando os sistemas tayloristas e fordistas. Este novo tipo de produção passa a exigir um novo tipo de trabalhador, também flexível, multifuncional, engajado no processo e na cultura da empresa, e não mais aquele que simplesmente vende a sua força de trabalho.

Neste novo cenário, a subjetividade do colaborador é apropriada pelas exigências físicas e mentais impostas para um bom desempenho num ambiente de trabalho flexibilizado, o que pode muitas vezes acabar por trazer diversos danos à saúde deste profissional. O ser humano não consegue desvincular sua vida cotidiana pessoal e profissional. As condições adversas do ambiente laboral, entre elas a pressão do ritmo de trabalho e o medo de demissão, faz com que os trabalhadores se sintam extremamente responsáveis, gerando um padrão de obediência, que se transforma em resiliência.

A resiliência é a capacidade humana para enfrentar, vencer e se fortalecer com as experiências adversas, procurando a um lado positivo em tudo. Esta característica da atitude resiliente vai de encontro com o desejado “novo perfil de trabalhador” das atuais empresas, pois denota rapidez em se adaptar ao novo, resolver a crise e transformar a situação.

A produção flexível supõe uma intensificação da exploração do trabalho, causando grande sofrimento ao colaborador, que encontra na atitude resiliente um mecanismo de defesa, uma forma de enfrentamento. A questão a se perguntar é até que ponto o sujeito consegue se proteger, sendo que mesmo os materiais resilientes, elásticos, fazendo uma ligação com o termo da física, um dia podem se romper devido à fadiga.

Dentro deste contexto, em que o trabalhador se sente cada vez mais responsável pelo processo de produção, a segurança dentro de muitas empresas hoje seria um valor, ou uma prioridade?
Para responder a esta pergunta, faz-se necessária uma melhor explicação sobre tais conceitos.

Scott Geller, autor do livro The psychology of Safety, cita um exemplo bastante simples para entendermos a diferença entre estes dois termos.

Todos as manhãs, antes de sairmos para o trabalho, cada um de nós têm uma rotina matinal própria. Alguns de nós tomam banho, um bom café da manhã, lêem o jornal. Outros acordam cedo o suficiente para uma caminhada. Se um dia acordamos atrasados, o que todos nós fazemos em comum? Se você tem apenas 15 minutos para estar no trabalho, pode ser que não tome o café da manhã, ou o banho, ou deixe de fazer a barba. Mas há algo que nenhum de nós deixaria de fazer – nos vestir. Isto porque o vestir-se antes de sair de casa é um valor, e não uma prioridade, que pode ser mudada de acordo com as circunstâncias do momento. Cabe aqui a questão: na empresa em que você trabalha, segurança é um valor ou uma prioridade que pode ser mudada em nome da produção ou algum outro motivo que pode parecer mais emergencial aos olhos da cultura organizacional em que você está inserido?
O ambiente de trabalho, que deveria ser cenário para a realização do sujeito, espaço para a criatividade, acaba se tornando via de sofrimento, exigindo cada vez mais do indivíduo e se apropriando de sua subjetividade, fazendo com que este se torne resiliente para se proteger de retaliações, tolerando, muitas vezes, o intolerável, no novo sistema de produção flexível. Por isso a importância do papel dos líderes de uma empresa, na confirmação diária da segurança enquanto valor dentro da organização. Valor que deve ser tão intrínseco quanto o vestir-se antes de sair de casa.

Viver sem risco é uma condição utópica, porém a minimização destes é possível dentro de uma cultura organizacional que privilegia segurança em detrimento a qualquer outra prioridade, reconhecendo o capital humano como o maior bem da organização.
CIMBALISTA, Silmara. Reflexões sobre o trabalho e a subjetividade de trabalhadores resilientes sob o sistema de produção flexível.
Rev. FAE, v.9, n.2, p. 13-28, jul/dez. 2006.

GELLER, E. Scott. The Psychology of Safety Handbook. Editora Lewis, 1942.