ARTIGO

RESENHA DO LIVRO COMPORTAMENTO SEGURO

Autor(a):
Anderson Canfild

Publicação:

APRESENTAÇÃO

Nesta a autora conta o que a instigou a escrever o livro. Primeiro por perceber que não havia respostas para tantas perguntas relacionadas a área de segurança, assim sendo, resolveu escrever sua dissertação de mestrado focando a Psicologia da Segurança do Trabalho e no segundo momento pela escassez de livros publicados da área.

CAPITULO 1

Psicologia e segurança no trabalho no Brasil: uma introdução.

Este capitulo inicia-se relatando que a Psicologia data de tempos imemoriais, mas como ciência estruturada data do século XIX. No Brasil está regulamentada a um pouco mais de 40 anos e tem suas atuações em vários campos, sendo o mais comum a Psicologia clínica. A Psicologia a serviço da prevenção de acidentes de trabalho teve sua introdução no mundo através de diversos autores, que já tratavam do ser humano envolvido em acidentes de trabalho, porém, ainda de forma bastante tímida. No Brasil através da obra Acidentes de Trabalho – Fator Humano, Contribuições da Psicologia do Trabalho, Atividades de Prevenção, do Psicólogo José Augusto Dela Coleta em 1979 é que houve uma grande contribuição da Psicologia para Segurança do trabalho. Segundo a autora este livro contribuiu por três sentidos:

1) O de demonstrar sua importância no cenário da produção cientifica e nas investigações sobre o fenômeno do acidente de trabalho.

2) Demonstra para psicólogos do país a necessidade de produzir conhecimento cientifico sobre o fenômeno.

3) O de reafirmar a presença do profissional da psicologia neste campo de atuação.

Por fim, comenta a importância de trabalhar a prevenção de forma adequada em treinamentos, palestras, etc.

CAPITULO 2

Comportamento Humano e prevenção: o que é (ou deveria ser) chamado d e “Segurança Comportamental”.

Neste a autora reforça a importância de lidar com o fenômeno comportamento de forma cientifica, cuidando para que não caia no senso comum, principalmente utilizado por profissionais que não tem o menor preparo para atuar com o fenômeno comportamento. Isto não quer dizer que estes profissionais não tenham sua importância no contexto da segurança do trabalho, porém cada qual com sua competência técnica.

Ainda, refere-se ao comportamento como algo complexo e que são as relações que o individuo estabelece com seu ambiente de trabalho, não como manipulação, como dizem alguns críticos da psicologia da segurança do trabalho. Aliás, como já citado, a prevenção passa pela concessão de poder aos trabalhadores e pela participação dos envolvidos, isto por si só, desmente que trabalhar com o comportamento preventivo em segurança é manipulação.

A noção de Comportamento Seguro

Uma das grandes indagações que se faz no mundo da segurança é: o que separa os equipamentos modernos, normas e procedimentos, orientações de treinamento da atuação concreta dos trabalhadores?

De acordo com a autora, mais do que uma ação visível da pessoa, o comportamento pode ser entendido como um conjunto de relações que se estabelecem entre aspectos de um organismo e aspectos do meio em que ele atua e as conseqüências da sua atuação, sendo o meio caracterizado como maquinas, ferramentas, relação com colegas e supervisores, normas e procedimentos entre outros. O Comportamento caracteriza-se por uma relação dinâmica composta por três perspectivas: o que acontece antes da ação desse organismo (ou junto com ela), a própria ação (ou o fazer) e o que acontece depois, como resultado da ação (Botomé, 2001).

Comportamento Seguro ou Comportamento de Risco?

Nesta parte indaga-se a utilização do termo ato inseguro como forma de referir-se a aspectos comportamentais em segurança. Mostra-se que utilizar o termo é um reducionismo aos aspectos comportamentais tais como vimos anteriormente. Outro ponto é a dificuldade em se trabalhar com o termo comportamento seguro devido a escassez de produções que tratem do oposto ato inseguro.

O chamado comportamento seguro pode ser definido por meio da capacidade de identificar e controlar os riscos da atividade no presente para que isso resulte em redução da probabilidade de conseqüências indesejáveis no futuro, para si e para o outro. Já o comportamento de risco poderia, então, ser definido por meio da relação com sua conseqüência, que é o aumento da probabilidade dos acidentes ocorrerem em função da influencia que exerce sobre as mesmas variáveis.

Evitamos acidentes ou Promovemos Saúde?

A autora nesta parte destaca que a característica essencial do fazer prevenção é atuar antes que ocorra o acidente. Por isso, prevenir é diferente de diagnosticar precocemente ou tratar com eficiência. Prevenir conforme o livro implica em agir em relação aos determinantes dos problemas e não apenas em relação aos problemas e suas conseqüências, o que muda o foco de atuação. Neste ponto é que muitas empresas geram equívocos em fazer prevenção, pois o fazem apenas calculando taxas de freqüência e analisando os acidentes para prevenir a reincidência. Isto demonstra ainda que é possível que grande parte das estratégias de prevenção estão baseadas no paradigma da doença, do acidente e não da saúde.

Capítulo 3

O desafio de educar e conscientizar trabalhadores e organizações para a prevenção.

Mudança de Comportamento

Não há duvida de que aprender a comportar-se de forma preventiva pode ser um dos meios de capacitar o trabalhador a prevenir lesões e doenças relativas ao trabalho e um dos pontos que evidencia isto é a mudança de comportamentos. Mas afinal, o que significa mudar comportamentos? Para os autores citados no livro, o que pode ser chamado de mudança de comportamento é a possibilidade de fazer novas sínteses comportamentais, isto é, reorganizar as relações que, estabelecidas entre as variáveis, compõem o comportamento de forma a modificar seu resultado; consiste em estabelecer novas relações entre um organismo, o meio em que atua e as conseqüências da sua atuação.

Essa mudança ocorre em razão das variáveis das quais o comportamento é função, o que pode ser decorrência das modificações nos equipamentos, na organização do trabalho, nas normas, de fatores interpessoais e socioculturais e ainda nas estratégias educativas utilizadas pela organização.

Educação por meio de controle ou por meio de escolhas: estratégias para influenciar comportamentos

Um dos grandes dilemas da educação para a prevenção consiste em encontrar um equilíbrio saudável entre obedecer a regras e agir com autonomia. Um estudo realizado pela autora revela que a maior parte dos instrutores estudados descreve cumprir normas e procedimentos o objetivo mais importante desse tipo de ação educativa, porém, ao ter-se a obediência como objetivo de ensino, pode-se incorrer no não desenvolvimento da capacidade do trabalhador em analisar a situação real com a qual está lidando. Ensinar alguém a trabalhar com consciência de segurança passa, necessariamente, por ensinar esse alguém a conhecer criticamente sua realidade, a fazer escolhas com relação a elas, considerando as conseqüências para si e para aqueles que o cercam. Assim posto, o processo de conscientização e educação com foco na prevenção não pode ficar restrito ao nível da obediência.

Treinamentos e Campanhas: Dilema entre Quantidade e Qualidade

Neste tópico é enfatizado a necessidade que as empresas tem de definir as estratégias de aprendizagem na melhoria das condições de segurança. O que se tem visto é uma grande quantidade de ações educativas que enfatizam a carga horária como capacitação, sem levar em conta aspectos como; o levantamento de necessidades em treinamento, planejamento de ensino, realização do curso, aplicação por parte dos aprendizes do conhecimento desenvolvido e a avaliação do conhecimento aprendido. Isto tudo deve, conforme os autores, estar em convergência com a natureza da atividade do trabalhador e seja apropriado ao seu nível educacional e de experiência profissional.

É de extrema importância de que as empresas entendam o educar como um processo do cotidiano para aumentar o seu nível de eficácia.

Quem são os Educadores? Desafios para a formação profissional

Os autores demonstram neste tópico a necessidade que as empresas devem ter ao enxergar o educador não só como aquele que ministra e realiza os treinamentos, mas sim todos aqueles que de alguma forma contribuem com a gestão organizacional, sejam eles diretores, gerentes, supervisores, coordenadores e colaboradores de uma forma geral.

O processo de ensinar e aprender vai muito além das salas de aula e treinamento. É um processo continuo e do dia a dia. Preocupar-se com a capacitação desses profissionais é fundamental para o bom desempenho no processo de prevenção.

O que se encontra hoje são profissionais muitas vezes tecnicamente capazes, mas sem uma formação didático pedagógica adequada para a realização do processo de ensinar.

Capitulo 4

Desenvolvimento de competências preventivas: um estudo com profissionais de manutenção no setor metalúrgico.

É possível afirmar que profissionais que passaram por um treinamento de segurança são pessoas capazes de prevenir acidentes?

Diante dessa questão Bley realizou um estudo que pretendia verificar as variáveis que interferem no processo de ensinar comportamentos seguros no trabalho.

Competência em trabalhar com Saúde e Segurança

Ao realizar o processo de ensinar e aprender o educador deve compreender que competências esse aluno deverá ter após ter participado do evento. A competência é descrita pelos autores como graus da capacidade de atuar de um organismo, assim, no que se refere a competência em saúde e segurança do trabalho, são os graus da capacidade que os indivíduos tem em controlar os riscos da atividade de modo a diminuir a possibilidade da ocorrência de um acidente. Os problemas residem neste fato, pois é comum os educadores não terem clareza sobre o que ensinar e os alunos sobre o que devem aprender.

Um estudo sobre como empresas têm ensinado trabalhadores a comportarem-se de forma segura

O presente trabalho realizado pela autora refere-se as variáveis do processo de ensinar o comportamento seguro no ambiente de trabalho em duas empresas do setor metalúrgico da região metropolitana de Curitiba. As empresas foram escolhidas por apresentarem graus de risco e atividade semelhantes.

Durante o trabalho verificou-se que a concepção do termo comportamento seguro divergia entre trabalhadores e instrutores de treinamento, sendo assim, ficava a questão: se os trabalhadores não são capazes de identificar os aspectos que caracterizam o trabalho seguro, serão eles capazes de fazer um trabalho preventivo para não ter acidentes de trabalho? Da mesma forma, se os instrutores não tem claro quais são as propriedades que caracterizam o processo de ensinar a trabalhar de forma segura, pouca são as chances de aprendizado no treinamento. A partir desse ponto viu-se a necessidade de trabalhar de forma diferenciada segurança, de que ensinar requer avaliar efetivamente o que deve ser ensinado, para que, e o que o aprendiz deverá ser capaz de fazer após o treinamento, mudando de uma concepção muito evidente nos dias de hoje onde se trabalha insegurança para ensinar as pessoas a se comportarem de forma segura.

Capítulo 5

Percepção de Riscos

Após um breve relato histórico sobre os riscos, perigos e prevenção de acidentes o autor remete-se a uma questão instigante. A segurança faz parte da natureza humana? Faz-se, por que continuamos, mesmo sabendo dos riscos e perigos que corremos, a trabalhar com insegurança.

É claro que trabalhar com segurança não faz parte da natureza humana, pois se fizesse jamais um ser humano em sã consciência desrespeitaria algo que pudesse causar lesões em si mesmo.

A partir daí o autor explica e nos traz uma compreensão sobre os conceitos que constituem o processo de prevenção como; sensação, percepção, risco, perigo, acidentes, incidentes, desvios e percepção de risco, sendo que este último torna-se o tópico de grande analise.

Capítulo 6

Desenvolvendo e Gerenciando o Clima e a Cultura de Segurança

No inicio deste capitulo o autor Julio Turbay faz um levantamento histórico das pesquisas de clima e cultura, realizadas por diversos autores, como; Meliá, Islãs, Cabrera, Diaz, Vasquez, Zohar entre tantos outros. Nestas pesquisas os autores apontam quais são as variáveis importantes ao se estudar e avaliar o clima e a cultura de segurança das empresas.

Clima de Segurança: Aproximações entre Teoria e Prática

Esse importante tópico revitaliza os pontos apontados antes nas pesquisas teóricas que avaliam o clima de segurança. Em recentes pesquisas, como já apontado no texto, o autor cita algumas das características inerentes a pesquisa e que a tornam em evidência na prática, por exemplo: a participação da liderança em segurança, percepção dos trabalhadores sobre os companheiros de trabalho e sua atuação pessoal, essas três variáveis somadas as ações que a empresa tem em segurança e a forma com os trabalhadores vêem, demonstram efetivamente a importância que o diagnóstico de clima tem para as organizações. Ainda, os autores propõe uma analise e compreensão mais detalhada sobre os fatores humanos, levando em conta aspectos pró ativos, como por exemplo, a atitude preventiva.

Sobre a atitude preventiva, que é um aspecto de difícil observação, devem-se levar em conta suas interfaces que são; os aspectos cognitivos, afetivos e de ação, para que o comportamento seguro ganhe status de habito para a empresa.

Durante o texto ainda, o autor, define como essas dimensões psicológicas podem ser olhadas pelas ações práticas da empresa e que antes da realização da pesquisa outros fatores devem ser olhados, como; períodos de greve, mudanças no processo de gestão e na liderança da empresa. Ao finalizar o autor descreve a importância de se realizar uma boa venda da pesquisa, para que a empresa compreenda e tenha o discernimento de que haverá situações positivas em relação a segurança e pontos a serem melhorados, bem como, ela avalie o que deve ser feito com os dados obtidos.

Capítulo 7

Cuidado Ser: considerações sobre Ciência, Gestão de Pessoas e Cidadania

Na finalização do livro os autores apontam para algumas reflexões, onde há necessidade de se pensar o ser humano de forma diferente, de humanizar mais as organizações, de construir ambientes mais seguros, dignos, saudáveis, compatíveis com uma qualidade de vida decente. Para isso, há necessidade que todos, sociedade, governantes, empresas, lideres e liderados assumam efetivamente a responsabilidade de que a transformação está em todo o processo e não somente no produto. Enfim, de que a chave está em enxergar o homem em sua integridade e não compará-lo com uma maquina.

Conclusões

É valido dizer que esta obra é uma das maiores contribuições à Psicologia da Segurança do Trabalho no Brasil, e por que não dizer, à área de Segurança do Trabalho. Ao longo dos vários parágrafos o leitor terá a oportunidade de compreender e desvendar conceitos que ainda hoje são mal interpretados quando se fala em Segurança Comportamental e educação para a segurança. Também terá a oportunidade de ter um olhar diferenciado no trabalho e por que não dizer, a grande oportunidade de fazer a diferença, de construir um ambiente de trabalho mais saudável e digno às pessoas.