ARTIGO

A UTILIZAÇÃO DA ANDRAGOGIA COMO ESTRATÉGIA PARA O AUMENTO DA QUALIDADE DOS DIÁLOGOS DE SEGURANÇA NAS EMPRESAS

Autor(a):
Bruna Fagundes Almeida

Publicação:

Trabalho de conclusão do curso MBA em Gestão de QSMS – Gestão Integrada em Qualidade, Segurança do Trabalho, Meio Ambiente e Saúde pela instituição CEBRACORP – Centro Brasileiro de Sustentabilidade e Educação Corporativa.

Resumo – Muitas empresas apresentam a demanda de que ao eleger o Diálogo Diário de Segurança (DDS) como estratégia de ação educativa em segurança não conseguem obter os resultados esperados.  Este momento muitas vezes é pervertido em sua função sendo usado para outros fins que não o da prevenção. Desta forma, o presente estudo buscou apresentar as premissas da Andragogia, que trata do processo de ensino-aprendizagem de adultos, como uma metodologia que possa resgatar o bom aproveitamento dessa ação. Para que isso fosse possível foi realizada uma formação teórica de facilitadores de DDS, para que tomassem conhecimento da metodologia, e logo após 2 acompanhamentos práticos para verificar o desempenho e evolução na nova ferramenta. O resultado foi positivo sendo confirmado o objetivo de que quando as premissas andragógicas são aplicadas aos DDS tem-se o aumento da participação, com ricas trocas de experiências entre os participantes e por consequência o aumento na efetividade desta ferramenta como estratégia de educação em segurança.

Abstract – Many companies look for help when the Daily Safety Dialogue (DSD) is chosen as an strategic educational action on safety and they cannot achieve the expected results. Many times this moment has it’s function perverted being used for other purposes than the prevention. Thus, this study looks to present the assumptions of Andragogy – that deal with adults teaching-learning process – as a methodology that could rescue the proper utilization of this action. For this to happen a  theoretical training of DSD facilitators was held for some employees to take cognizance of the methodology, and soon after 2 practical trainings were held to check the performance and progress in the new tool. The result was positive and confirmed the hypothesis that when the andragogical assumptions are applied to DSD it increases the participation, with rich experiences exchange among participants and consequently increases the effectiveness of this tool as an educational strategy in safety.

Palavras-chave: Andragogia, diálogo de segurança, DDS, comunicação em segurança.

 Introdução

Falar sobre educação para a segurança é algo complexo uma vez que a segurança não faz parte da natureza humana (BLEY e col., 2007). Há nos indivíduos o instinto de sobrevivência, porém a segurança como processo educativo de prevenção, controle e gerenciamento de riscos, é algo que precisa ser estruturado para que o colaborador possa conseguir aplicar em sua prática os conteúdos trabalhados (BLEY e col., 2007). É nesse sentido que a Andragogia, ciência-arte que estuda o processo de aprendizagem em adultos, vem esclarecer alguns pontos para que a relação de ensino-aprendizagem seja mais eficaz.

Segundo Knowles (2009) os adultos são motivados por sua vontade de crescimento e desta forma precisam entender o porquê de aprender algo e qual será a aplicação prática imediata deste conteúdo.  Os conhecimentos devem estar relacionados às experiências anteriores do indivíduo, o ambiente deve ser informal e estimulativo para que haja intensa troca de experiências entre os participantes gerando um clima favorável à aprendizagem (KNOWLES, 2009).

Bellan (2005) aponta que para uma ação educativa ter sucesso alguns pontos devem ser observados:

  1. a) mapeamento do público alvo – para conhecer a característica dos participantes e estruturar algo que lhes faça sentido;
  2. b) o objetivo da ação educativa – que se caracteriza pelo conteúdo que os indivíduos precisarão saber após participar da ação;
  3. c) metodologia – trata-se da escolha da forma de conduzir a ação educativa para atingir os objetivos; d) avaliação da ação – momento em que há verificação da retenção do conteúdo pelo público.

Desta forma para que as ações educativas sejam implementadas com sucesso, é preciso levar em consideração que os trabalhadores das empresas são indivíduos adultos e que a sua forma de aprendizagem é distinta necessitando de cuidados específicos no momento de ensino.

Justificativa

A escolha do tema deu-se pela constante demanda das empresas de que criam momentos educativos, mas estes não produzem o efeito esperado. Acolhendo esta demanda lançou-se um olhar sobre um desses momentos: o Diálogo Diário de Segurança (DDS), ferramenta que surgiu provavelmente na década de 90, pois não há registros bibliográficos formais de seu histórico, e que buscava através de uma breve conversação abordar temas preventivos levando o colaborador a uma reflexão sobre os riscos que enfrentará nas suas atividades.

Baseado nos preceitos da Andragogia, o presente estudo teve como objetivo apresentar as premissas desta metodologia para a que os DDS possam ser melhor aproveitados.

Método

O presente artigo foi um estudo de caso, sendo foi realizado em uma instituição multinacional de grande porte, líder no segmento de higiene, saúde e bem estar e que atua há 18 anos no Brasil e no mercado internacional desde 1872. A escolha desta empresa se deu por sempre estar classificada como uma das melhores empresas para se trabalhar e sua preocupação contínua na melhoria dos processos de segurança e preservação da vida. Para o estudo foram selecionados 23 colaboradores homens, independente de sua faixa etária e que apresentassem características específicas como: pró atividade, boa comunicação, perfil de liderança e interesse por segurança.

O estudo foi realizado obedecendo as seguintes etapas:

1) Formação teórica de 8h: nesta formação lhes foi apresentado um método para realização de DDS, pautado em premissas andragógicas, sendo este dividido em etapas: uma anterior a execução, em que se prepara o tema de segurança levando em consideração o público e o objetivo que se deseja alcançar  e a etapa prática que envolve os seguintes passos:

  1. a) Aquecimento: para atrair a atenção do público e focar a equipe para a atividade;
  2. b) Revisão: com função de relembrar o tema do dia anterior para verificação do que foi aprendido e consolidado sobre o tema;
  3. c) Introdução: para marcar o encerramento de um tema e apresentação do novo contextualizando a sua importância para o grupo;
  4. d) Desenvolvimento: trata-se de usar uma metodologia que proporcione participação ativa entre a equipe através da troca de experiências e/ou ideias para melhor desenvolvimento da percepção;
  5. e) Conclusão: fechamento de compromissos para colocar o tema discutido em prática.

Cada passo contém premissas andragógicas que buscam estimular a interação entre o grupo e proporcionar rica troca de experiências.

2) Dois acompanhamentos práticos, com duração de 1h por encontro, para realização do DDS no novo formato com o intuito de verificar as habilidades desenvolvidas. O 1º acompanhamento se deu logo após a formação teórica e o 2º com 1 mês de intervalo após o 1º para que neste tempo o facilitador pudesse treinar sozinho e consolidar suas habilidades. Vale salientar que durante esses acompanhamentos era dedicado um tempo inicial de 10 minutos para verificar com o facilitador se ele preparou o tema, estabeleceu os objetivos do DDS e escolheu

uma metodologia adequada para que a atividade pudesse ter sucesso.

3) Feedbacks de desempenho: após cada um dos acompanhamentos em campo o facilitador foi conduzido a uma sala para receber seu feedback formal. Este feedback foi pautado em um instrumento composto de uma série de comportamentos (tabela 1), fundamentados em premissas andragógicas,  que precisavam ser apresentados para que o desempenho fosse considerado satisfatório e o DDS de qualidade. O facilitador e o examinador preenchiam em conjunto esse instrumento atribuindo pontuações de 1 a 4 para cada um dos itens, sendo a nota 1 a não realização do comportamento e a nota 4 o atendimento completo do item. Após esta etapa era analisado o resultado e verificado junto com o facilitador quais eram seus pontos fortes e suas oportunidades de melhoria a serem desenvolvidas para o próximo encontro, entendendo como desempenho satisfatório a pontuação igual ou superior a 3.

Tabela1 – Crivo para feedback de desempenho do facilitador no DDS

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Resultados

De acordo com os dados coletados pôde-se observar na Tabela 2 que dos 23 sujeitos participantes apenas 8 não atingiram a pontuação desejada de 3,0 no 1º acompanhamento prático e a média dos participantes foi de 3,20. No entanto, houve evolução significativa do 1º para o 2º acompanhamento e nenhum dos sujeitos ficou abaixo de 3,0 sendo a média para o 2º acompanhamento 3,71.

Tabela 2 – Desempenho médio geral e individual dos participantes no 1º e 2º
acompanhamento

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Ao cruzar os resultados da média do seguimento da metodologia com a média da participação no DDS nota-se que aqueles que tiveram um aumento no seguimento da metodologia também tiveram uma melhora na sua participação. O gráfico abaixo apresenta a média geral de desempenho do grupo e demonstra os avanços do 1º para o 2º acompanhamento prático (gráfico 1).

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Gráfico 1 – Relação da média de seguimento da metodologia com a média de participação
O mesmo aconteceu com a relação entre a média do seguimento da metodologia e o alcance dos objetivos do DDS, mostrando que o seguimento da metodologia possui impacto positivo na concretização dos objetivos do DDS (gráfico 2).

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Gráfico 2 – Relação da média do seguimento da metodologia com o atingimento dos objetivos

Quanto aos itens que compõe a metodologia, verificou-se que os executados com maior facilidade foram o aquecimento, revisão e introdução; e os que apresentaram maior dificuldade foram os de desenvolvimento e conclusão. Notou-se ainda que as maiores evoluções ocorreram justamente nos itens considerados mais complexos: desenvolvimento e conclusão, embora todos apresentaram melhorias significativas no 2º acompanhamento.

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Gráfico 3 – Desempenho médio nos itens da Metodologia

Discussão e Conclusão

O estudo apontou conformidade com Bellan (2005) e Knowles (2009), pois quando as premissas andragógicas foram aplicadas todos os sujeitos demonstraram bom desempenho, principalmente no 2º acompanhamento prático em que a média foi de 3,71, o que demonstrou que a Andragogia contribuiu para que o DDS tivesse maior êxito em seus objetivos. No entanto, como não houve diagnóstico inicial da ferramenta, não se pode fazer uma comparação com um grupo controle para verificar as diferenças de uma amostra em que a metodologia não foi aplicada. Desta forma tem-se aqui um ponto a ser explorado em posteriores estudos.
Ao cruzar os dados, os resultados obtidos estavam novamente em concordância com a literatura, isto é, as premissas andragógicas como metodologia contribuíram para um melhor aproveitamento do DDS. Mesmo no 1º acompanhamento prático já se percebeu a assimilação da metodologia pelos sujeitos. Os 8 participantes que haviam ficado abaixo da pontuação, com despenho inferior a 3,0 no 1º acompanhamento prático, se recuperaram significativamente no 2º contribuindo para o aumento da média geral que passou de 3,20 para 3,71.
Ao observar o desempenho médio nos itens da metodologia notou-se que a revisão, desenvolvimento e a conclusão foram as etapas em que os participantes apresentaram menor desempenho. Estas etapas exigem maior grau de habilidade andragógica dos facilitadores e, apesar do desempenho já satisfatório, devem permanecer em constante aprimoramento para aumento e manutenção da eficiência e eficácia do diálogo.
Da mesma forma que a metodologia andragógica favorece a participação dos indivíduos no diálogo (gráfico 1) ela também auxilia para que os objetivos do DDS sejam alcançados (gráfico 2). A Andragogia, enquanto estratégia de ensino, aproxima o tema em pauta do seu objetivo e através de uma rica metodologia estimula a troca de ideias entre os participantes fazendo com que tenham uma visualização da aplicabilidade imediata contribuindo assim para que os objetivos do DDS sejam atingidos.
Os resultados obtidos permitiram atingir o objetivo deste estudo de que a Andragogia aplicada aos diálogos de segurança pode ser uma boa estratégia para aumentar a efetividade desta ferramenta como ação educativa. Sugere-se que os próximos estudos busquem realizar um diagnóstico prévio à implantação dos princípios andragógicos, bem como a utilização de um grupo controle para que se possa evidenciar com maior clareza o impacto dessa estratégia de ensino na eficiência e qualidade do DDS.

Referências

1. BELLAN, Zezina, S. Andragogia em ação. Como ensinar adltos sem se tornar maçante. Santa Bárbara do d’Oeste: SOCEP Editora, 2005.
2. BLEY, Juliana, Z. Capítulo 3: O desafio de educar e conscientizar trabalhadores e organizações para a prevenção. In: BLEY, Juliana, Z.; TURBAY, Julio.C.F.; CUNHA, Odilon Jr. Comportamento Seguro: Psicologia da Segurança no Trabalho e a Educação para a Prevenção de Doenças e Acidentes. 2. Ed. Curitiba. Sol, 2007.
3. GELLER, E. Scott. Psychology of Safety Handbook. 2 ed. Crc Press Llc, 2000, 560p.
4. KNOWLES, Malcolm, S.; HOLTON III, E. F.; SWANSON, R. A. Aprendizagem de resultados: uma abordagem prática para aumentar a efetividade da ação corporativa. Rio de Janeiro: Campus, 2009.
5. REASON, James. Achieving a safe culture: theory and practice. Work & Stress. Vol. 12, nº 3, 293-306. Available: http://www.raes-hfg.com/reports/21may09-Potential/21may09-JReason.pdf. [13 out. 2014].

Agradecimento: Para que um trabalho tenha êxito ele precisa ser construído por pessoas capacitadas, engajadas, criativas e que tenham o “brilho nos olhos” por aquilo que fazem. Posso dizer que tive muita sorte ao estar cercada de pessoas assim, que serviram como fonte de inspiração e apoio nos momentos de dificuldade.

Desta forma, deixo aqui meu agradecimento a algumas pessoas sem as quais o presente trabalho não teria sido realizado:
Ao Guilherme Alcântara, meu amigo e colega de profissão, que emprestou seus conhecimentos em análise estatística fazendo toda a diferença na interpretação dos resultados e apoio nas madrugadas de estudo;

À empresa Comportamento Psicologia do Trabalho, na figura de Anderson Alberto Canfild, meu gestor e responsável por “plantar o brilho nos olhos” sobre o trabalhar com a prevenção em segurança;

As minhas amigas e colegas de profissão Carolina Butyn e Sheila Menegari, por proporcionar apoio incondicional nos momentos de dificuldades;
Aos meus pais, por todo amor, carinho e educação – meus primeiros professores;
Aos professores do Cebracorp, na figura da profª e orientadora Lucy Mara Baú, por todo conhecimento e apoio na consolidação da escolha de uma carreira e suporte na realização deste artigo;

E a Deus, que nos abençoa e ilumina diariamente para que possamos através do nosso trabalho promover saúde e segurança e quiçá salvar vidas dentro das organizações.

A todos o meu sincero muito obrigado!